Chico Lopes fala sobre a Arte de Cida Garcia
Cida Garcia confessa: não sabe explicar seus quadros. Sua matéria não é a palavra. Numa conversa com a artista ouço-a dizer que em menina, não olhava para as paisagens como as outras, procurando árvores, flores, formas definidas- o que a interessava eram as manchas, a forma incerta da água correndo, a entrelinha do visível. Uma vocação espontânea para o não figurativo já estava lá. Ela queria olhar para o vazio, para o enigmático, para o vasto e hipnótico intervalo entre a coisa e sua representacão. Mergulho no indizível. Natural que as palavras sejam um obstáculo para Cida. Sentir e fazer sentir é a sua missão. Explicar isso fica para outros. Como eu, que olho para seus quadros. Há uma cidade, um país desconhecido de que Cida nos dá as frestas, de que só podemos saber isto: é feito de ouro e azul, violetas e rosas, e tracos que se estendem até o limite da interrogação, círculos que desabrocham como sóis ou luas para as esquivas criaturinhas que ali, no emaranhado das cores, se alimentam de luz incerta. Aos olhar para os trabalhos de Cida, sentimos que ela mais garimpou que pintou. Quer dizer: ela entrou, cegamente, nessa mina de preciosidades ofuscantes que há no seu interior escuro, em busca de quê? Só saberíamos se ela falasse. Mas ela não fala: prefere pintar. E segue a procura. Essa mulher, que cedo manifestou uma vocação para a arte notada por Menotti Del Picchia, é sua própria pintura. Vital, alegre, dando de si como professora, amando as crianças, tendo sempre palavras animadoras para quem quer que seja, Cida diz que sua entrega à Pintura é completa. Que não sabe nunca o que quer, mas sabe que, em dado momento, deverá abrir as janelas para que o Inesperado se dê, o Invisível se materialize.De algum modo oblíquo, adivinhamos: ela é uma prova viva da realidade da Inspiração. De que anjos povoam o ar e milagres não cessam de acontecer. Meu olhar não encontra, em tantas cores, um só ponto que não seja de interesse. O país de Cida, Tão livre, contudo nada tem de anárquico. Pois o Invisível geometriza, há rigor na composição da cor, rigor que não exclui a largueza do gesto, o gosto do lúdico, o vôo do imprevisto. Vestígios do figurativo, como se estivéssemos num sonho, são sugeridos: escadas, estrelas, ossaturas, sombras de alguém que existiu e que, para prosseguir, sofreu mutações drásticas e continua sofrendo ( pois a alegria de Cida não deixa de roçar os poços do sofrimento, lá, onde seres informes se angustiam por Nascer). Que sacrifícios, que luzes, que minérios Cida revolve neste garimpo em seu próprio escuro? Ela nada diz: seu trabalho é garimpar. Uma composição em sépia, que Cida cerca de um rendilhado branco. Uma porta de chumbo que, provavelmente é a da caverna do Tesouro, mas Cida sabe que o “Abre-te Sésamo”é a pintura, ou seja- o Inexplicável. A senha para entrar é o empenho em Ser, em resgatar do escuro, incessantemente, tudo que não pode ser dito ,e, no entanto, é essencial. Anéis, respingos, gestos que lacram, gestos que entreabrem, que sugerem, que buscam. Cida vive tentando o gesto. Aquele que completaria seus tracos inquietos, suas rupturas, seus vazios interrogativos, e poderia devolvê-la inteira a si mesma. É preciso seguí-la nessa procura, sem perguntar para onde é que se está indo. O sopro do Acaso e o rigor da Paixão nos conduzem para esse país, essa cidade que Cida habita como uma menina perdida entre escombros, mas orientada por luzes que não sabe de onde vem. Não interroguemos: entreguemo-nos a Cida como ela se entrega a si mesma, a seu espesso Mistério. Chico Lopes Jornalista Critico de Cinema do Instituto Moreira Salles

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