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A ARTE DE CIDA GARCIA

16/08/2007 GMT 1

Entrevista João Fernandes-Ana Maria Coutinho e Castro-Falcão do Minho-TV Viana.

cidagarcia @ 12:51

 Cultura

Falamos da obra de Cida Garcia e dos seus mitos

Viana do Castelo, Quinta, 16 de Agosto de 2007 Para termos uma ideia mais aprofundada sobre a pintora Cida Garcia, natural de Minas Gerais, Brasil, com reconhecido valor artístico no seu país e que viria a ser apreciada em outros países onde já expôs, colocando-a ao nível das obras de grandes artistas plásticos contemporâneos, entrevistamos Ana M. Coutinho Castro que a tem acompanhado - e da qual é amiga - sobre a trajectória cultural e artística da autora .

Quem é Cida Garcia? Cida Garcia estudou com grandes mestres da pintura ligados à Escola Guignard e UFMG, Universidade Federal de Minas Gerais, como Sara Ávida do Grupo Phases de Paris, Álvaro Apocalipse, (Teatro Giramundo de Bonecos) Herculano Ferreira, Maria do Carmo Arantes UFMG (História da Arte), Carlos Wolney, Marco Túlio Resende.

Sobre a exposição da Melo Alvim, os 18 quadros estão carregados de mística, de símbolos que atravessaram a história da humanidade, as religiões, os mitos e as crenças que resistiram milénios e se confrontam e, hoje, se cruzam neste mundo globalizado.

Sobre os quadros diga, em meia dúzia de palavras, o que simboliza aquele mistério religioso? São símbolos místicos que têm atravessado a humanidade, e que ainda hoje continuam muito vivos, na medida em que um símbolo é a codificação, por assim dizer, de mensagens muito profundas, desde o primeiro quadro que é o quadrado e o círculo, que representam uma união do que é o terreno físico, o nosso ser físico, material, digamos, ao círculo que representa a totalidade espiritual, o encontro do humano com a dimensão maior, até, por exemplo, ao peixe que é também um símbolo enorme da água, da origem da vida, da sobrevivência.

Há aqui várias religiões, desde a suástica…< Sim, desde a suástica, que foi anterior a qualquer religião. A suástica insere-se na geometria sagrada, pictagórica, que representa uma dinâmica da vida, na sua circularidade; ao completar-se o círculo, completa-se a totalidade na perfeição, na perfeição espiritual, acima de tudo.

Mas muitas pessoas entendem a suástica relacionada com o nazismo, não é? Há uma parte muito negativa. Sim, é uma parte muito negativa, e porquê? Porque as pessoas ao verem a cruz suástica nazi, não dão conta que Hitler inverteu a cruz e pôs os braços precisamente ao contrário. Aí é que está a diferença e, ainda há pouco tempo, conversando com a Cida Garcia, ela dizia-me aquilo que muitos portugueses não sabem: a cruz suástica está , por exemplo, nas ruínas de Conímbriga, que coincidem com a humanidade antes de se pensar que viria no século XX, um Adolfo Hitler fazer o que fez.

Ele tirou proveito de um símbolo que atravessa todas as culturas. Se investigar livros ou informações sobre o peso do simbolismo em que entra a cruz suástica, ela pode aparecer em religiões na América, por exemplo, ou religiões ou filosofias de vida, com os braços, não a direito, mas curvos, segmentos do círculo. Tem múltiplas variantes, mas funciona sempre com o mesmo sentido, a circularidade com o centro, o ponto zero de que tudo parte, tudo. Eu acho que a escolha da Cida Garcia em termos de orientação que lhe deu e, das cores que introduziu, das figuras interiores com que animou toda a sua cruz suástica, em vez de fazer lembrar Hitler, restitui ao símbolo original, o valor que ela tem. Portanto, o trabalho da Cida Garcia é um trabalho de restituição e revalorização do símbolo milenar. Mas estou a falar assim de seis mil anos…, não sei bem neste momento. Eu sei que ela é multimilenar.

O judaísmo por exemplo… O judaísmo também aproveitou, porque na cruz suástica estão os quatro braços que podemos encontrar na outra cruz, que foi um símbolo ainda anterior ao cristianismo, a cruz com dois eixos que faz quatro partes, representa os quatro pontos cardeais, representa as quatro estações da natureza. O número quatro é muito importante, daí o quadrado com os quatro lados ser o símbolo da terra, do nosso ser humano e das nossas limitações, mas que podem ser abertas e, contrariamente ao que fez, por exemplo, Leonardo da Vinci, que pintou o quadrado dentro do círculo, o círculo por fora é a amplitude e dentro do quadrado e do círculo, ele plasmou o homem como o símbolo da estrela de cinco pontas, o homem na sua divina proporção. A Cida Garcia fez ao contrário, “prendeu” o divino do círculo, dentro do quadrado que é o humano, que é a terra.

O que é que a Cida Garcia representa, não como artista, mas como ser humano? Espero que ninguém pense que as minhas palavras possam ser uma visão muito pessoal. A Cida Garcia é uma grande mulher, é uma grande senhora, ela é um espírito aberto, é de uma cultura imensa, ela não pinta sem incluir uma inserção na música, na arquitectura, na cultura popular e cristã também. Ela transmite isso tudo.

O que eu vejo nela, e isto agora são palavras muito minhas, depois de um ano consecutivo de uma relação com ela, de a ouvir atentamente, é o que ela tem de filão na religião cristã: é o pensar no outro, o saber dar-se ao outro.

Ela pratica a religião cristã? Não posso dizer que ela seja praticante. Ela tira da religião cristã os ensinamentos positivos e pratica-os. Isto é como em todas as religiões. Todas elas têm as suas virtudes, mas também têm os seus grandes defeitos.

Ela bebeu muito de tudo, de cada coisa e para chegar a essas conclusões teve de estudar profundamente todos os símbolos e sua codificação.

Todos. Sim, todos os símbolos. Ao longo da vida foi uma aprendizagem. A pintura dela também é resultado de uma aprendizagem pessoal, muito humana.

Porquê Viana e porque deixou aqui estes quadros todos? Depois de chegar a Viana começou a conhecer as nossas gentes, começou a fotografar, porque ela também é artista nesse campo. Não é profissional, mas a sensibilidade dela leva-a a focar uma pedra. Se me permite eu conto-lhe um momento muito rápido. Eu ia com ela ali na Rua S. António, uma noite a acompanhá-la até à casa onde estava instalada e de repente disse: “Ana, me deixa ver, que pena não ter luz para a minha máquina, Ana vê como essas pedras da calçada estão brilhando…” Os vianenses passam por isto e não vêem, mas ela viu isto e viu, por exemplo, as cantadeiras do Neiva, esteve com elas, fotografou-as, dançou com elas… O feirão foi uma festa para Cida Garcia.

Isto aconteceu quando? O ano passado. Ela esteve cá entre Abril e Agosto, regressou ao Brasil no fim de Agosto, e nesses meses pintou muito. Entretanto, começou a saber de entidades, fomos visitar a Casa dos Rapazes, por exemplo. Começou a saber de entidades que se dedicam à solidariedade social, com muito voluntariado e com muita dedicação aos que sofrem, àqueles que são excluídos….A inspiração dela, a necessidade de pintar, todo o compromisso dela, que é permanente para com os outros, levou-a a começar a pintar aqui e a dizer: “Bom, isto vai ficar aqui, é para vender. Eu não vou ganhar nada, vai ser para doar a estas instituições portuguesas. Eu amo Portugal, eu amo os portugueses.”.

É portuguesa? Ela não. Tem ascendentes de Braga. Tem uma ascendência galega através do nome Garcia, vem de uma ascendência italiana através do apelido Annoni.

 Ela veio aqui identificar-se com ascendência antiga. E daí ficar com laços muito fortes e precisava de deixar os quadros aqui, não os podia levar todos para o Brasil.

E do que é que resultou toda esta acção? Da paixão dela por Portugal, pelas nossas pedras, pela nossa cultura, pelos nossos escritores, cantores…Ela hoje sente-se dividida entre Portugal e o Brasil. É metade portuguesa, é metade brasileira e quer voltar cá. Deixou-me procuradora dela, deixou-me com a responsabilidade de gerir exposições na ausência dela e alargar o conhecimento da obra.

Quando é que Cida Garcia começou a pintar? Não sei. Desde muito cedo. Acho que já nasceu para a pintura. Eu já lhe perguntei se ela tem ideia de quantos quadros já pintou e nem ela sabe.

Ela tem conhecimentos. Tem curso, foi professora. Tem as técnicas todas, ateliers, workshops.

Quantos quadros pintou durante a sua estadia em Viana? Pintou 74 quadros. Estão todos guardados. Até agora não foi vendido nenhum. As pessoas dizem: “Eles são lindíssimo, eles valem muito”, mas nós sabemos que a crise é muito grande. E também depende muito das prioridades que as pessoas têm.

Entrevista conduzida por João Fernandes

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